Candidato ao Senado na chapa do governador Jaques Wagner (PT), que concorre à reeleição, o deputado federal Walter Pinheiro (PT) foi o escolhido pelos petistas para disputar a vaga após derrotar Waldir Pires na disputa interna do partido. Pinheiro concorre a uma das duas vagas ao Senado ao lado da também deputada federal Lídice da Mata (PSB), disputando o mesmo eleitorado. Minimizando o fato, o deputado diz que não há divisão de votos, mas sim soma e que os dois estariam até sintonizando plataformas de campanha. Com experiência de quatro legislaturas na Câmara Federal, articulador, Pinheiro foi designado pelo governador para assumir, em2009, a pasta de Planejamento. Soteropolitano do subúrbio ferroviário, disputou as eleições para a Prefeitura de Salvador em 2008, conseguindo chegar ao segundo turno.
Acabou sendo derrotado pelo prefeito João Henrique Carneiro (PMDB), que foi reeleito. Mas persistência é uma marca de Pinheiro: “Eu sempre trabalho da seguinte forma: é possível a gente conquistar mais. E parto do princípio que as coisas difíceis a gente até faz logo, o impossível é que demora um pouco”, diz, após entrevista. Casado com Ana Pinheiro há mais de 30 anos, pai de três filhos “lindos, que por sinal são a cara do pai”, como diz em tom de brincadeira, Pinheiro, evangélico batista, apesar do estilo sóbrio, se autodefine como pessoa bem-humorada e com a virtude de não guardar mágoas de ninguém.
A disputa interna no PT entre o senhor e Waldir Pires deixou feridas abertas?
Absolutamente nada. O processo foi dos mais tranquilos e nós saímos unificados com todos, inclusive a parcela que apoiou Waldir. Ele foi extraordinário e o primeiro a vir para o abraço.
O senhor disputa voto com Lídice. Um dos dois pode sair perdendo com isso, não é?
Pelo contrário, a eleição agora é de dois votos, então não tem disputa, tem soma. Lídice tem brincado comigo que é para eu avisar minha mulher que agora ganhei uma mulher na rua. Vamos andar juntos, fazer campanha vinculada à majoritária da presidente Dilma. Vamos buscar associar as nossas bandeiras para que o eleitorado perceba a importância da eleição dos dois senadores da mesma linha.
O senhor pretende ficar os oito anos no Senado?
Lógico. Não estou disputando uma eleição para quatro ou para menos de quatro anos. Inclusive, isso norteou a escolha do nosso suplente. Eu até brinquei e disse: “Eu prefiro um suplente que tenha menos intimidade do que eu com Deus”. Segunda questão: não escolhemos suplente para financiar campanha. Nós escolhemos o suplente para somar e não tem nenhum acordo de suplente assumir mandato, eu vou para um mandato de oito anos. A história da política, a decisão do meu partido é que deve orientar qual a movimentação que pode ou não ocorrer nesses anos.
Na sua opinião, que esteve à frente da Secretaria de Planejamento, qual é a maior dificuldade dessa gestão?
O governo teve um problema, em 2009, que balançou o mundo inteiro, a crise econômica. E nós enfrentamos também uma crise política, com a saída de um partido que compunha nossa base de sustentação (PMDB). Eu diria que nós enfrentamos as duas crises bem. A crise política teve um resultado positivo, ampliamos o leque de alianças com a vinda de outros partidos. Na crise econômica nos saímos muito bem, tanto é que a Bahia está batendo recordes em postos de trabalho.
Então esse governo não tem problemas?
Tem problemas como todo governo. Agora nós ajustamos bastante a questão da gestão. Trabalhamos muito no sentido de integrar as secretarias, devolvemos ao Estado uma coisa importante, a sua coragem de planejar, não tratar na base do imediatismo as coisas.Tanto é que deixamos a Secretaria de Planejamento com a proposta de pensar a Bahia até 2023. A Bahia fez investimentos importantes combinados com o governo federal nessa área de infraestrutura. O Estado pensou, mas tivemos problemas efetivos para investimentos. O investimentodo Estado com recursos próprios é cerca de R$ 1,2 bi, é o que tem de um orçamento de R$ 21 bi, uma Receita Corrente Líquida para 2010, pela primeira vez deve bater na casa dos R$ 16 bi.
A Segurança deve ser o principal foco dos adversários. Como o governo pretende responder a isso?
É um quadro que foi se acumulando. Eu poderia dar uma resposta sobre o que foi feito: contratação de policiais, equipamentos, nível de inteligência – a Bahia hoje tem um dos melhores quadros de inteligência do País –, mas nós enfrentamos um período de degradação consubstancial, de ausência de política nesse Estado, ao longo dos anos, que de certa maneira levou nossa estrutura policial a estar despreparada para o combate ao crime organizado, seja em banditismo, mundo das drogas. Mas temos de ir superando problemas de postos de trabalho, oportunidades, para ir preenchendo a lacuna. O crime organizado se instalou no local que achou facilidades. Não tem vácuo na sociedade. Quando o Estado não ocupa o espaço, o crime organizado vai lá e ocupa. Então uma das ocupações que nós estamos fazendo é nesse sentido. Por isso, a decisão de investir descentralizadamente, permitindo que de forma espacial se distribuam bem as oportunidades. Lógico que temos que combater o crime com repressão, mas o fundamental é trabalhar de forma que atenda à sociedade por outros fatores.
Na campanha, o PT não poderá atacar muito o DEM, pois tem Otto Alencar na chapa. Nem o PMDB, que foi aliado e está com Dilma...
Uma coisa que eu aprendi nesses anos: temos de falar o que podemos e somos capazes de fazer. Os defeitos dos meus adversários o povo vê. Numa campanha tem momentos do debate e vamos responder. Agora, a melhor defesa é o ataque. Se eu me fechar bem e não fizer gol o que eu posso levar é um jogo de zero a zero e arrisco perder nos pênaltis. Então prefiro marcar gol, ir pra cima e apontar aquilo que a gente fez de bom e que temos condições de fazer muito mais.
O duplo palanque pode atrapalhar Wagner?
Quem vai ter que administrar o duplo palanque é Dilma, não Wagner. Nós vamos fazer nossa campanha e ganhar. Dilma é que precisa de mais votos. Se tiver 50% mais um, elege-se Wagner no 1º turno. Se eu tiver 30% dos votos pro Senado, é bem capaz que eu me eleja. Então Dilma, vamos precisar botar um pouquinho mais, chegar a 60%, 66%. Quem terá dois palanques? Dilma. Wagner terá o palanque dele. E o DNA de Wagner se confunde muito com o de Dilma. O eleitor vai saber, decidir, entender, compreender. A identidade de Wagner se parece muito mais com a de Dilma do que de outro candidato.
O PT aqui sempre colou na imagem de Lula, agora também. O PT não tem ideias próprias para defender um projeto de governo?
Nós estamos disputando eleição que o Lula não é candidato! A sociedade diz que o governo Lula é uma maravilha, tem aprovação de 86%. A aprovação alta é do governo Lula, que compreende as políticas públicas que o governo faz. Por que Dilma começa a crescer nas pesquisas? É só transferência pessoal ou é a sociedade entendendo os projetos? Claro que Lula está pedindo votos e tem que pedir. Dilma é candidata dele, é natural. Agora, não é a candidata do homem Lula, é candidata de um programa, de um projeto. A sociedade não conhecia Dilma, ela nunca disputou eleição. Na realidade, as pessoas estão apostado num projeto, desde quando ela era ministra de Minas e Energia.
Mas ela nem aparecia...
Sim, mas ela foi responsável por exemplo, por uma das principais áreas do governo de investimento e se saiu superbem. Você acha que as pessoas estão respondendo as pesquisas pela Dilma? Dilma não é conhecida. As pessoas que estão respondendo são as mesmas pessoas que aprovam Lula em seu governo com mais de 86%. Eu diria que as pessoas começaram a entender que Dilma é candidata de um projeto que deu certo e teve a frente uma pessoa chamada Lula. Vamos eleger oprojeto, não o homem.
Muitos dizem queDilmanão empolganosdiscursos...
Ela empolga, mas é que Dilma gosta de fazer a prestação de contas, falar de propostas para não entrar só no vazio das coisas. Tem a preocupação em falar de coisas concretas. Esse diálogo que ela faz com o público, ela não precisa fazer do ponto de vista da emoção para tentar convencer. Na campanha tem de ter uma linguagem eleitoral, mas esta não pode ser maquiada, com traços de engano. É isso que Dilma tem o primor, de ser o que é.
Mudando de assunto. O Ministério Público questiona o projeto da Fonte Nova. Vale tudo pela Copa?
Não. Copa deve ser uma janela de oportunidades, e não uma exigência, uma determinação. Copa e Jogos Olímpicos são oportunidades até porque a Copa dura 30 dias. A sociedade vai ficar ali, no mínimo, 300 anos. A Fonte Nova tinha de passar por uma reforma até por causa da tragédia que aconteceu ali. Com a chegada da oportunidade da Copa, se pensou: já que vai chegar a Copa, vamos pensar numa arena com diversas coisas no entorno para quebrar a lógica do estádio que eu só uso no final de semana e na quarta-feira. Eu acho que o projeto é correto e não tenho nenhuma crítica ao MP. Eles têm todo o rigor de passar o pente fino no contrato, tá no papel correto. Agora, acho que a gente não pode trabalhar com os extremos. Aí alguém chega e fala: “Ah, porque aquilo ali era uma área de preservação...”. Que área de preservação? O estádio tinha problemas, estava condenado, não tinha como ser utilizado, ia fazer o quê? Manter aquele monumento do jeito que estava só pra gente contar história que um dia existiu a Fonte Nova? E uma história, inclusive, trágica. O Estado fez o debate amplo e acessível até pelo Ministério Público.